29
Abril
2007
Desejo humano, doce de canela
como se alguém quisesse parar-te,
roubar-te da vida,
mostrar-te o paraíso.
Desejo de ires a onde quiseres
Desejo de não voltares sem vontade
Desejo de seres quem és quando estamos juntos.
Desejo em suor, lágrimas, odores e cores,
quase em vertigem,
em espasmos
Desejo em pele,
língua e tatuagem de luz no espectro do toque,
êxtase.
Desejo de ficares
Desejo de partires
Desejo de abandono do mundo dos mortos
Desejo de abraçar o farol que nos guia
e nos perdermos na noite,
de nos encontrarmos no cais, de olharmos as estrelas, a lua, o mar.
Desejo de rirmos, rirmos das peripécias, das saudades, de nós.
Desejo em alegres suspiros,
murmúrios, encantos.
Desejo em toque de pele, de mãos e corpos suados, molhados, sedentos.
Publicado por aifos e colocado em Prosa Poética |
24
Abril
2007
Flor delicada e encantada,
gentil forma de ser e estar
de oferecer e transmitir.
Flor nas mil flores única,
testemunho de uma vida,
de uma paixão,
da noite que passa
e do dia para sempre marcado.
Flor no instante perfeito
ou perfeita num momento quase comum.
Flor de pétalas rosadas, coradas,
como tantos sorrisos meigos e tranquilos
como outros tantos desejos e medos inquietos.
Flor no aroma perfeito
da imperfeição dos passos que se arrastam
e dos muros que não se ultrapassam.
Flor no sabor que não há
na perfeição do toque, leve, livre, solto.
Esta a flor de pétalas coradas, encarnadas,
como tantos sorrisos meigos e tranquilos
como outros tantos desejos na paixão e no amor.
Publicado por aifos e colocado em Poesia |
22
Abril
2007
Já morri e já renasci.
Não uma mas duas vezes.
Uma vez engoliu-me o mar.
E no dorso de uma sereia ressurgi na praia.
Outra vez sangrou-me o peito, ensurdecedora dor.
E ressuscitei-me numa e noutra garrafa de whisky.
Já morri não uma, mas duas vezes.
Todo o meu tempo, agora, é emprestado.
Por isso, tão mais amado.
Por isso, tão mais apaixonado.
Já me fizeram o funeral, não uma, sim duas vezes.
Calor abrasador.
Fato justo e pesado.
Dispenso.
Carpir, sim um pouco, demasiado.
Sangrar, sim um pouco, demasiado.
Enlouquecer, sim um pouco, demasiado.
Já morri e já renasci.
Não uma mas duas vezes.
E por vezes é bom recordar, como hoje, que meu tempo é agora, emprestado.
Publicado por Marinheiro e colocado em Poesia |
19
Abril
2007
Queria escrever um poema
cheio de luz e cor e mel
que pudesses sentir daí
e tocar como se nesta tela fosses pincel.
Queria tanto escrever um poema
marcado pelo doce do teu brilho
que me cantasse o sonho
e o desejo em cada dia,
que te desse certezas
e me abraçasse quando fico só.
Um poema em que exista
sol e sombra,
dia e noite,
paixão.
Um poema de acontece,
de futuro e de presente,
sem lágrimas tristes do passado.
Palavras sinceras,
sentidas,
sofridas,
sorvidas, gota a gota, como este cálice de licor
cor de mel, corpo quente, sabor ardente.
Queria escrever um poema
em que o céu de Janeiro se descrevesse
e as nuvens formassem desenhos
e o farol até aqui descesse.
Queria tanto escrever um poema
forte como o brilho da estrela que trazes em ti,
alegre como o São João,
colorido como todas as flores,
as terras e o balão.
Um poema de mar,
de seara alentejana,
de noite ao relento a contar segredos.
Um poema de amor,
que tocasse a magia do encontro
e atingisse a vertigem do abraço terno.
Queria tanto saber escrever
o leve toque da folha que desliza pelo vento,
o meigo toque das mãos que me rasgam sorrisos,
a respiração uníssona de quem ama.
Um poema que te calasse
entre abraços e beijos,
que te fizesse rir muito
e entre cócegas gritasses meu nome.
Queria muito saber escrever esse poema
que aconchega antes de adormecer
e mostra sempre sol radioso na manhã seguinte.
Publicado por aifos e colocado em Poesia |
19
Abril
2007
Hoje calo a paixão que me foge pelos dedos e me transborda do peito e do olhar.
Hoje calo esse amor frenético de desgarrada luxúria que me transcende em beijos e línguas de fogo.
Hoje calo essa vida destravada, sonhada, irreal e tresloucada, de Primaveras sem fim.
E paro de falar de mim.
Falo de nós. Para onde vamos? O que somos?
Tantas questões encerramos sempre em nós. Certezas e receios. Contradições.
Notícias de crimes, actos vis, assassinatos, corrupção, vulgarizam-se nas notícias, nos lábios, nos ouvidos.
Notícias de flagelos, falta de esperança, falta de fé ou compaixão, falta de luz e compreensão, comuns nas notícias, todos os dias.
Cheios, cheios, lábios, cabeça, ouvidos.
E crescemos incompreendidos, incompreendendo. E crescemos ervas daninhas e outros parasitas. Mentiras, hipocrisias.
Há quem esqueça tão rápido a verdade e a pureza de viver na verdade. Tranquilo.
Deitar e dormir descansado. Deitar e acordar descansado. Valorizar a paz, a nossa paz. Viver em paz, mesmo que não, ainda, na derradeira e absoluta paz. Vivendo um pouco mais cada dia e não o inverso.
Toldados por céus cinza, fragrâncias de enxofre e terra queimada. Temos de sorrir e ser tranquilos.
Que morra a vida, mas não o espírito! Que morram a palavras, mas não o nobre sentimento!
E acabei por falar em mim…
Publicado por Marinheiro e colocado em Prosa Poética |
17
Abril
2007
Faz um tempo estranho.
Um tempo de caretas.
De espasmos e de espantos.
De relâmpagos
De trovões
Faz um tempo de dilúvio.
Faz um tempo de bonança.
De imagens e sons.
De pesadelos e pasmares.
De suores e de lágrimas.
Faz um tempo que não te vejo.
Horas, minutos, séculos.
Faz um tempo sem Amor.
Dias, anos, séculos.
Faz um tempo de funda dor.
Mais de vinte anos.
E “veinte años no es nada”.
Faz um tempo, quente, quente.
Ameno inferno de sorrisos perdidos.
Ameno inferno de sorrisos escondidos.
Treme a terra com o pulsar do coração.
Rosto sardento e alvo.
Um deleite, um desejo, um recado.
Um tempo de palavras, juras e promessas.
Um tempo delicado, mãos, rosto, orelhas, pescoço.
Um tempo de prazer, de entrega, de contentamento.
Faz tempo, brilho no céu.
Outro Sol, outro Éden revelado, outro tecto espelhado.
Faz tempo, sauna, banho quente, corpo dormente.
Faz tempo lânguido, estreito, esguio, escondido.
Tanto tempo sem te ver.
Horas, horas, mil anos.
Publicado por Marinheiro e colocado em Poesia |
12
Abril
2007
Posso querer-te e posso desejar-te.
Não posso nunca ter-te.
Posso ver-te e posso ouvir-te.
Não posso nunca abraçar-te.
Podes viver mais mil anos e podes correr mais mil cantos sem envelhecer.
Podes ser celeste, esmeralda, avelã, poder ter mil tons, revelares-te e esconderes-te.
Podes falar sem saber, podes existir sem saber, podes encantar sem saber.
Posso tão pouco face ao tanto que podes tu.
Então como assim, encontro alivio na minha mortalidade.
Um dia deixarei de poder e tu na tua imortalidade poderás sempre recordar-me. Ou não. Nesse dia abandonarei: ânsia, dúvida, alegria e dor.
Nesse dia deixarei de me importar.
Até lá.
Posso querer-te e encontrar-te.
E não poderei nunca ter-te.
Publicado por Marinheiro e colocado em Poesia |
9
Abril
2007
Uma madrugada nunca se repete,
nem quando estás por perto,
nem quando me encontro no vazio,
coberta de saudade que me corrói a alma,
mas me ilumina a vida
porque estás comigo, mesmo que às vezes longe.
Não consigo dormir, hoje.
A vida passa-me à frente
como se assistisse a um filme de outro realizador,
que não eu.
Tudo dorme.
Eu contemplo as estrelas:
fixo o olhar nessa mesma
que também olhas daí.
Escolho a cor,
O timbre,
O cheiro…
Começo a escrever.
O sabor oscila entre o chocolate que derreto na boca
e o aveludado gole que tomo da taça alta,
reluzente na luz [áurea] da vela.
A madrugada nunca se repete.
Pode desejar-se em formas,
cores, trajectos, presenças,
embrulhos, laço, presentes…
Guardo esta madrugada…
Publicado por aifos e colocado em Prosa Poética |
5
Abril
2007
O dia já vai avançado e eu continuo a lutar contra uma memória. Contra um passado que não posso corrigir. Não consigo desligar-me. Já tentei diversas vezes inspirar com força a realidade, mas ele insiste em agarrar-se às moléculas de oxigénio que me entram corpo adentro. Sou um farrapo. Não tenho controlo. Fecho os olhos e ele está à minha frente. Imóvel. Estende-me a mão, abre-me um sorriso. Está tudo bem, sinto que sim. Sinto que nada de errado aconteceu e continuo a poder usufruir da sua presença. Quem me dera! Rosto esguio e sardas no nariz. Magnífica alegria de viver. Aquela de que eu tanto precisava. Continua igual. O tempo não passou.
A vida interrompe-me e eu disfarço a custo a minha confusão. Uma mão que me acaricia e que não tem dedos afunilados. Um rosto sério sem proeminências. Uma pessoa não é outra e, por muito que eu queira, não posso retornar o tempo.
Vou colocar o véu, vestir negro. Vou acender uma vela. Lançar as cinzas do topo da montanha, daquela de que só ele e eu sabemos. Vou desejar que o seu espírito voe alto e feliz na sua nova vida. A mim, resta-me o luto. E arrancar de dentro este pedaço que ainda é seu corpo e alma e sal. Foi numa Páscoa que aconteceu esta morte.
Vou manter os olhos abertos para que os fantasmas não regressem em sonhos, recordando-me de momentos doces que fazem doer no coração.
Publicado por Flower e colocado em Crónica |
5
Abril
2007
Chega a Páscoa e com ela a alegria da família, mas também a história do sacrifício e da fé.
Tenho receio. Acordo e adormeço em receio. Um dia pode bem ser o último dia. O meu último dia, o nosso último dia.
Tenho receio. Não digo medo, porque cedo no peso dessa palavra, prefiro receio.
Suor frio, face pálida e brilhante. Mãos delgadas e escorregadias.
Tenho receio. Um dia acordaremos, mas não adormeceremos. E esse dia pode estar para breve.
E se dias há, que fico paralisado neste meu terror, outros há em que a Primavera me entra janela a dentro, vistas a dentro, alma a dentro. E volto a sorrir…
Mas um dia, um dia moeda ao ar…
Estaremos…
Sem Sol ou outras estrelas no horizonte.
Sem fome e sem sede.
Semeados brilhos ora foscos ora reluzentes, mas sempre muito artificiais.
Sem luz do dia, farol ou fogueira.
Sem desejos ou privações.
Cintilação errática em paisagens desertas de sons e vida.
Sem lábios ou palavras por proferir.
Sem ar, sem vento, sem aragem tranquila… Apenas sombra. Fria e total e absoluta sombra…
E brilhos, artificiais, ora foscos, ora reluzentes.
Finais.
Até lá tenho fé.
Tenho fé na Primavera e na luz que me entra alma a dentro!
Publicado por Marinheiro e colocado em Crónica |