Apocalipse
Publicado por Marinheiro em Crónica |Chega a Páscoa e com ela a alegria da família, mas também a história do sacrifício e da fé.
Tenho receio. Acordo e adormeço em receio. Um dia pode bem ser o último dia. O meu último dia, o nosso último dia.
Tenho receio. Não digo medo, porque cedo no peso dessa palavra, prefiro receio.
Suor frio, face pálida e brilhante. Mãos delgadas e escorregadias.
Tenho receio. Um dia acordaremos, mas não adormeceremos. E esse dia pode estar para breve.
E se dias há, que fico paralisado neste meu terror, outros há em que a Primavera me entra janela a dentro, vistas a dentro, alma a dentro. E volto a sorrir…
Mas um dia, um dia moeda ao ar…
Estaremos…
Sem Sol ou outras estrelas no horizonte.
Sem fome e sem sede.
Semeados brilhos ora foscos ora reluzentes, mas sempre muito artificiais.
Sem luz do dia, farol ou fogueira.
Sem desejos ou privações.
Cintilação errática em paisagens desertas de sons e vida.
Sem lábios ou palavras por proferir.
Sem ar, sem vento, sem aragem tranquila… Apenas sombra. Fria e total e absoluta sombra…
E brilhos, artificiais, ora foscos, ora reluzentes.
Finais.
Até lá tenho fé.
Tenho fé na Primavera e na luz que me entra alma a dentro!

