Funeral Devido II
Publicado por Flower em Crónica |O dia já vai avançado e eu continuo a lutar contra uma memória. Contra um passado que não posso corrigir. Não consigo desligar-me. Já tentei diversas vezes inspirar com força a realidade, mas ele insiste em agarrar-se às moléculas de oxigénio que me entram corpo adentro. Sou um farrapo. Não tenho controlo. Fecho os olhos e ele está à minha frente. Imóvel. Estende-me a mão, abre-me um sorriso. Está tudo bem, sinto que sim. Sinto que nada de errado aconteceu e continuo a poder usufruir da sua presença. Quem me dera! Rosto esguio e sardas no nariz. Magnífica alegria de viver. Aquela de que eu tanto precisava. Continua igual. O tempo não passou.
A vida interrompe-me e eu disfarço a custo a minha confusão. Uma mão que me acaricia e que não tem dedos afunilados. Um rosto sério sem proeminências. Uma pessoa não é outra e, por muito que eu queira, não posso retornar o tempo.
Vou colocar o véu, vestir negro. Vou acender uma vela. Lançar as cinzas do topo da montanha, daquela de que só ele e eu sabemos. Vou desejar que o seu espírito voe alto e feliz na sua nova vida. A mim, resta-me o luto. E arrancar de dentro este pedaço que ainda é seu corpo e alma e sal. Foi numa Páscoa que aconteceu esta morte.
Vou manter os olhos abertos para que os fantasmas não regressem em sonhos, recordando-me de momentos doces que fazem doer no coração.

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