5
Abril
2007
Hoje sonhei com ele. Curioso. Há muitos anos que nem sequer me recordava das suas feições. E, talvez por isso, decidiu visitar-me esta noite. Trazia uma expressão serena, de quem se tinha esquecido das mágoas provocadas por mim. E, como em todos os sonhos onde nem tudo faz o sentido que devia, recordo de pequenos pormenores que só um sonho podia ressuscitar. E quanto tempo demorei a rasurá-los da minha memória… sonho maldito! Os dedos afunilados nas extremidades e a maçã do rosto agravada pela magreza. Um sorriso desarmante. Carinho meu, carinho desconcertante.
De qualquer modo invadiu o meu leito, esta noite, para me recordar que o passado é só outra forma do presente. Porque não o enterrei, não lhe fiz luto. Não vesti preto e não derramei lágrimas por si. E precisava tê-las derramado. Porque assim não consigo aceitar que ele já não exista para mim.
Descansa em paz, aconchego meu.
Publicado por Flower e colocado em Crónica |
3
Abril
2007
Cabelos brancos de sabedoria
e tons de saudade,
melodia de outros dias
de tantos dias
dos nossos dias.
Cabelos brancos na sedução
e encanto.
Altos voos
agora serenos
em cabelos brandos,
brancos,
macios.
Teus cabelos brancos
história de outros momentos
de tantos momentos
dos nossos afectos…
Publicado por aifos e colocado em Poesia |
2
Abril
2007
O dia levanta-se e eu, em jeito de preguiça, levanto-me atrás dele para o agarrar. O sino já toca lá fora, diz que já são horas, já são horas e quinze, horas e meia, horas e quarenta e cinco, mais horas do que gostaria e, apressada, vou a correr que já não tenho tempo. O sol elevado estreita-se na parede branca do quarto, nunca chega à janela da cozinha e tenho de tomar o meu café na penumbra que não há tempo de ser diferente. O banho fugido, as roupas de ontem, que outras custam a escolher, o cabelo as is, a cara mais vincada que ontem, que o tempo passa, corre, e os traços desbotam-se na pele. Desço as escadas e desço as escadas e desço as escadas, que as escadas que me levam da minha casa são infinitas, olhos no chão, às vezes em frente, mas vem alguém e eles tornam-me a cair, que só tenho um propósito, um único propósito, que é mais um dia, e não é esse de olhar em frente. Passo o cartão, abre-me a porta, corro escadas a baixo, cuidado para não escorregar, de dois em dois degraus que o metro já lá está, e as pessoas invadem a sua entrada, travam a minha passagem, colocam-se na minha frente, que elas não me vêem e eu as não vejo, olhos no chão, o apito grita agudo, as portas fecham-me do lado de fora, as pessoas de dentro olham-me pelo vidro e não me vêem, porque os meus olhos estão colados ao chão. Sento-me no banco corrido, o mais longe que puder do que já lá estava, não quero incomodar, não quero que me vejam, olhos no chão, joelhos ao peito, à espera de outra oportunidade.
Publicado por Flower e colocado em Conto |
1
Abril
2007
Teremos tudo que merecemos?
Julgo que sim.
Sonho que não.
Vivo nesta incerteza, acabada de incompleta.
Chegam e partem estações, acolhemos sorrisos e lágrimas por igual.
Teremos tudo o que merecemos?
Publicado por Marinheiro e colocado em Poesia |