Firmino
Publicado por Mik em Romance |Era o burburinho de quando algo de grave acontecia. As vozes chegavam ao início da rua trazidas pelo vento. Os bêbados desinteressados da taberna amontoavam-se a um canto num tom grave e sigiloso. À pergunta do que se passara ninguém ousou responder. Mais à frente ouvi credos, comentários de indignação e ouvi choros que vinham de dentro da casa. Tentei aproximar-me um pouco mais. A multidão era densa. Continuavam a chegar pessoas e as que estavam não arredavam pé. Era grave.
Uma porta e uma janela apenas, habitavam-nas uma velhota bolorenta e o filho, um sujeito fuinhas que passava as madrugadas a agachar-se das granadas, saía para a rua em pijama a somar pretos na ponta da baioneta, o sujeito enfermiço a quem meio litro de vinho embebedava por três dias. Meio litro de vinho e os pretos de volta.
O vinho assegurava que os pides o arrastaram pela rua fora, lhe mediram a tensão, lhe experimentaram o sangue e concluiram.
-Apto!
A junta médica mediu-lhe a tensão, experimentou-lhe o fígado e não teve Duvidas.
-Doze contos e quinhentos chega-lhe muito bem! É tudo para vinho!
A rua tomara já aquele tom desbotado de um entardecer de Outono e a noite ameaçava baixar sobre a multidão, quando por fim chegou a polícia, que rompeu por entre os inúmeros curiosos. Com a chegada da guarda, os familiares e amigos da desgraça perderam o controlo da porta e surgiu a oportunidade de também eu, aceso de curiosidade, chegar à entrada para espreitar, até um polícia barrigudo dar comigo.
- Fora daqui catraio.
Era uma casa humilde como todas as casas do bairro. Por trás daquela porta, um corredor com uma entrada logo à direita que dava para uma divisão pequena, onde eu por baixo do braço de alguém, ainda lhe vi os pés pendurados e os chinelos desordenados no chão. Ninguém se atrevera a tocar no morto até então.
- Foi o Firmino.
Nessa noite sonhei com o tipo enfermiço. Até aí nunca vira um defunto e o que me ficou foram uns pés pendurados, com umas meias brancas sem elástico a cair-lhe nos calcanhares e uns chinelos de quarto, desordenados no chão. Tentava imaginar o que não conseguira ver, a corda presa na viga, o vergão no pescoço, os braços caídos ao longo do corpo, o mistério das calças molhadas, porque dizia o Nelson que os enforcados se urinam quando a corda… Sonhei que chegava a tempo de lhe falar e lhe perguntava porquê e ele nada dizia, olhava-me com aquela cara de quando contava os pretos na ponta da baioneta, como se não soubesse se havia de subir para a corda ou se me pendurava a mim, e que optara por mim, de repente eu a olhar para baixo e ver os meus pés pendurados com umas meias brancas com o elástico frouxo a escaparem-me dos pés, ouvir os rumores lá fora, as pessoas a chorar, a minha mãe a chorar, os meus irmãos a chorar, o meu pai a chorar.
- Dei-me conta de que nunca vira o meu pai chorar –
“os homem não choram” – aquela imagem emocionou-me e senti uma culpa que me causava dor, uma dor irreparável, assistia à minha partida sem poder fazer nada, sem poder voltar a trás, sair da corda e dizer: mãe, não chore! Eu não morri, não vou para a escuridão da sala de velório, onde os vizinhos espantados se perguntariam sobre as causas, a não compreenderem, pois; - Afinal, um miúdo! Um miúdo, meu deus! - A consternação na escola, os meus colegas excitadíssimos no átrio da igreja, um caixão branco como quando foi do Paulo, centenas de flores que adocicavam o ar e se misturavam com o cheiro das velas ao queimar, o pavio a extinguir-se como se de uma contagem final se tratasse e eu a extinguir-me com ele, o cheiro das velas é o meu cheiro ao esgotar-me; primeiro a cabeça, depois o peito, impotente para o sopro da salvação, juntava os lábios e nada, continuava a derreter para o chão numa metamorfose humana que me transformaria em ar quente e num montinho de cera derrotado.
O Firmino de súbito derrotado. Não uma corda cobarde, asseguro, mas os pretos, ou os pides, que o arrastarm para áfrica e o empurraram para o mato como os médicos da Caixa o empurraram para a corda…
(to be continued)

