15 Maio 2007

Viver feliz

Pode parecer inverdade
O que vos vou relatar
Acreditem é realidade
Completa veracidade
O que se está a passar.
Uma doença me assolou
Tive que enfrentar a verdade
A mim não me poupou
A contar aqui estou
Como veio a felicidade.
Claro que estou limitado
Mas imensamente feliz
Sinto-me muito agradado
E bastante aliviado
Acreditem, sou eu que o diz.
A saúde logo a crescer
Tabaco e álcool cortados
Passo bem sem o prazer
Nem preciso de os rever
Por mim foram abandonados.
Pela manhã ao acordar
O meu sorriso é real
Por tão feliz estar
De mais um dia enfrentar
Parece tão natural.
A diabetes vou guiar
Na sua nova morada
Também dela tratar
Com isso me vai ajudar
A passar melhor a estrada.
Neste invulgar cruzamento
Parece uma contradição
Mostrar este sentimento
Estar feliz neste momento
Mas é mesmo do coração.

JORGE BRITES

Partilhando o meu Sorriso e uma alegria imensa pela vida.

Publicado por Jorge Brites e colocado em Poesia | 2 Comentários

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15 Maio 2007

Não te pergunto…

Não te pergunto porquê, mas escuto.
O peito disparado,
Um rumor de tambores dentro do peito
Virado de súbito para mim o olhar abrupto,
O pestanejar colado,
Segundo o segundo, perfeito.
Não te pergunto porquê,
Os olhos entregam-te o punhal da questão,
Devolves um” não sei porquê”
Falso apelo ao coração.
Não te pergunto porquê
E os meus ouvidos retinem
Dói-me a cabeça de te ouvir em segredo
O meu olhar só vê,
Respostas que não definem
Todo este medo.
Não te pergunto porquê
Não tem porquê a pergunta
,A pergunta só a faz quem crê
Que há na resposta, uma verdade defunta.

Publicado por PS e colocado em Poesia | 3 Comentários

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9 Maio 2007

Labaredas

Labaredas de incenso perfumado
Presença assídua em dias de aroma.
Labaredas de incenso quente
Presença imóvel que contempla o ser amado,
Labaredas de incenso com melodia,
Presença fugaz.

Nu, quase perfeito
Corpo.
Respiração compassada
nas pautas desse leito
cuja luz te esconde.

Linha de ombro
Corpo.
Na sombra da Lua.

Respiração ofegante
no desassossego interior
cujo brilho de lábios, morno, encerra.

Labaredas!
Incenso arde…
Arde a música que consumimos nesta noite
A viagem que fazemos até ao encontro.

Labaredas de ti
em mim,
outrora
e ainda agora.

Cabelos molhados
Boca salgada de saudade
Doce de mel que me abraça
neste calafrio que sinto em redor do corpo.

Alma.
Arco-íris.
Torre mais alta da cidade,
que chego a ver daqui.

Labaredas!

Labaredas nas margens de um rio,
no contorno dos corpos e no olhar apaixonado.

Publicado por aifos e colocado em Prosa Poética | 0 Comentários

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6 Maio 2007

Saudades

Saudades. Esperar-te num hiato de tempo que não se concretiza, que não te desvenda e que não te conhece. Imaginar-te numa nuvem de estrelas e de pó e crer que um dia serás matéria, corpo no meu corpo, pele na minha pele. Não me dar a nada menos do que tu, querer-te com tanta força que tenhas de nascer para satisfazer a voz dos deuses. Reconhecer-te na minha boca o sabor a frutas e algodão doce. Desesperar no horizonte do mar e do tempo em que não surges quando uma nesga de vento te tinha prometido. Saudades da febre que não senti. Da vertigem de tu e eu não sermos coisas diferentes. Querer ser o sal que transpira a tua pele, para deslizar infinitamente nos teus limites. Vertigem de morte de cair em ti continuamente. Saudades, temperatura que a vontade não mata. Sede que não se aquieta. Um peito que não se toca. Porque não existem outras mãos.

Vem.

Publicado por Flower e colocado em Prosa Poética | 1 Comentário

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3 Maio 2007

Firmino

Era o burburinho de quando algo de grave acontecia. As vozes chegavam ao início da rua trazidas pelo vento. Os bêbados desinteressados da taberna amontoavam-se a um canto num tom grave e sigiloso. À pergunta do que se passara ninguém ousou responder. Mais à frente ouvi credos, comentários de indignação e ouvi choros que vinham de dentro da casa. Tentei aproximar-me um pouco mais. A multidão era densa. Continuavam a chegar pessoas e as que estavam não arredavam pé. Era grave.
Uma porta e uma janela apenas, habitavam-nas uma velhota bolorenta e o filho, um sujeito fuinhas que passava as madrugadas a agachar-se das granadas, saía para a rua em pijama a somar pretos na ponta da baioneta, o sujeito enfermiço a quem meio litro de vinho embebedava por três dias. Meio litro de vinho e os pretos de volta.
O vinho assegurava que os pides o arrastaram pela rua fora, lhe mediram a tensão, lhe experimentaram o sangue e concluiram.
-Apto!
A junta médica mediu-lhe a tensão, experimentou-lhe o fígado e não teve Duvidas.
-Doze contos e quinhentos chega-lhe muito bem! É tudo para vinho!
A rua tomara já aquele tom desbotado de um entardecer de Outono e a noite ameaçava baixar sobre a multidão, quando por fim chegou a polícia, que rompeu por entre os inúmeros curiosos. Com a chegada da guarda, os familiares e amigos da desgraça perderam o controlo da porta e surgiu a oportunidade de também eu, aceso de curiosidade, chegar à entrada para espreitar, até um polícia barrigudo dar comigo.
- Fora daqui catraio.
Era uma casa humilde como todas as casas do bairro. Por trás daquela porta, um corredor com uma entrada logo à direita que dava para uma divisão pequena, onde eu por baixo do braço de alguém, ainda lhe vi os pés pendurados e os chinelos desordenados no chão. Ninguém se atrevera a tocar no morto até então.
- Foi o Firmino.
Nessa noite sonhei com o tipo enfermiço. Até aí nunca vira um defunto e o que me ficou foram uns pés pendurados, com umas meias brancas sem elástico a cair-lhe nos calcanhares e uns chinelos de quarto, desordenados no chão. Tentava imaginar o que não conseguira ver, a corda presa na viga, o vergão no pescoço, os braços caídos ao longo do corpo, o mistério das calças molhadas, porque dizia o Nelson que os enforcados se urinam quando a corda… Sonhei que chegava a tempo de lhe falar e lhe perguntava porquê e ele nada dizia, olhava-me com aquela cara de quando contava os pretos na ponta da baioneta, como se não soubesse se havia de subir para a corda ou se me pendurava a mim, e que optara por mim, de repente eu a olhar para baixo e ver os meus pés pendurados com umas meias brancas com o elástico frouxo a escaparem-me dos pés, ouvir os rumores lá fora, as pessoas a chorar, a minha mãe a chorar, os meus irmãos a chorar, o meu pai a chorar.
- Dei-me conta de que nunca vira o meu pai chorar –
“os homem não choram” – aquela imagem emocionou-me e senti uma culpa que me causava dor, uma dor irreparável, assistia à minha partida sem poder fazer nada, sem poder voltar a trás, sair da corda e dizer: mãe, não chore! Eu não morri, não vou para a escuridão da sala de velório, onde os vizinhos espantados se perguntariam sobre as causas, a não compreenderem, pois; - Afinal, um miúdo! Um miúdo, meu deus! - A consternação na escola, os meus colegas excitadíssimos no átrio da igreja, um caixão branco como quando foi do Paulo, centenas de flores que adocicavam o ar e se misturavam com o cheiro das velas ao queimar, o pavio a extinguir-se como se de uma contagem final se tratasse e eu a extinguir-me com ele, o cheiro das velas é o meu cheiro ao esgotar-me; primeiro a cabeça, depois o peito, impotente para o sopro da salvação, juntava os lábios e nada, continuava a derreter para o chão numa metamorfose humana que me transformaria em ar quente e num montinho de cera derrotado.
O Firmino de súbito derrotado. Não uma corda cobarde, asseguro, mas os pretos, ou os pides, que o arrastarm para áfrica e o empurraram para o mato como os médicos da Caixa o empurraram para a corda…

(to be continued)

Publicado por Mik e colocado em Romance | 3 Comentários

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