Vai uma tragédia?
Publicado por crucius em Crónica |Sempre me interroguei acerca do facto das catástrofes reunirem muita gente. A meu ver, demasiada.
Estamos constantemente a ver acidentes e incidentes, desastres naturais e provocados, suicídios e homicídios, e gostamos sempre deles. Onde se já viu, em pelo início de telejornal, uma noticia relacionada com um encontro entre mãe e filho ou entre avó e neto? Aqueles bonecos pomposos, com ar de pessoas importantes e cabelos ridículos, começam sempre por ler (e muitas vezes bastante mal), numa espécie de monitor milagroso, as palavras da ordem do dia, invariavelmente terroríficas: “Boa Noite. Horror em Bagdade! Cinco membros das tropas Americanas morreram, e outros cinco ficaram gravemente feridos. Quanto aos terroristas (vá-se lá saber quem são), estimam-se vinte mortos e dez feridos. George Bush já anunciou que isto não se vai repetir, pois o numero de baixas de soldados norte-americanos é demasiado grande”. Todos os dias os amantes das notícias têm de levar com isto… Isto é, ao que parece gostam.
Quando acordo, e infrutiferamente ligo a televisão em busca de algo interessante, o que me oferecem, e ofertas destas dispenso, são dezenas de corpos em plena via pública qual cão ou gato, provocando em mim um certo mal-estar, logo de manhã cedo. E quando estou a tentar concentrar-me nos flocos de trigo integral, tostados no forno com um toque de mel, deturpados pela vista deficiente ás sete da manhã, mostram-me, em África, dezenas de criancinhas esfomeadas a pedir esmola e a comer leite com animaizinhos mortos misturados. Escusado será dizer que o meu estômago se sente apertado, estando pronto a projectar tudo, mesmo tudo, cá para fora.
Finalmente vou-me para a escola, e que vejo eu?! Um acidente! Horrível… Horrível disse eu? Não! Isso e óptimo! é outra forma de estudar Anatomia (outra forma, diga-se, porque existe uma, sobejamente conhecida por todos os indivíduos da faixa etária dos 12 aos 18, demasiado obscena para aqui transcrever), Matemática (calcular qual a distancia entre a cabeça do fulano A e a outra extremidade do corpo do mesmo), Psicologia, quando alguém grita: “Onde e que este &%$@=*&% estava com a cabeça quando fez isto?”, e muitas outras ciências, que são melhor invocadas numa situação destas que num dia normal, numa sala de aula banal.
E finalmente, quando o dia já esta a culminar, depois de um longo dia de infortúnios e trabalho árduo (Estão a brincar??????) , eis que me chega uma noticia. “Estás a ver aquele primo do tio da namorada do outro filho do padrasto do Doutor José? Morreu! O Funeral é amanhã… Achas que vou bem vestida?” Ora Bolas! Só ca faltava mais esta! Velório! Escusado será dizer que me arrastaram para lá, onde não se chora, como seria, provavelmente, de esperar, mas ri-se, socializa-se, vê-se como os outros estão vestidos, se trazem jóias, a cor das cuecas e todo o material do género. Quando lá chego, a minha ideia sobre a catástrofe é reforçada. Sobre um canto do meu campo de visão, vejo a mulher do morto. Está com um ar feliz. Está a discutir, a alto e a bom som, o grande negócio, que são as partilhas, com o futuro marido, que esperava ansiosamente a morte do morto. Por outro lado, quando cada mãe tem cinco filhos, esses filhos têm outros filhos, que alguns deles já têm filhos, mais as mulheres dos filhos, e dos netos e dos bisnetos mais os padrinhos á mistura, transformam, o que era suposto ser um velório numa festa de gente conhecida, semi-conhecida e desconhecida. Que por vezes é abrilhantada por irmãos que não têm uma relação estável entre eles e que fazem perguntas do género: “Olha, Mafalda, importavas-te de pedir ‘àquele senhor’ que me chegasse os amendoins?”, ao que faz, outras vezes ainda, que essa antipatia leve a uma autentica troca de insultos e material orgânico, transformando tudo numa grande orgia, regada com champanhe (certamente atirado à garrafada) e caju com piri-piri.
No meio de tudo isso chega o Padre, dirige-se ao morto, ou ao que sobrou dele, e grita: “Descanse em Paz e que o Senhor o acompanhe”.

