12 Novembro 2007

Osso

Publicado por Catarina Silva em Prosa Poética |

Nas feridas que prosperam, nos pés descalços, famintos. Andas. Sustado na própria dor. Alastras. Na culpa peregrina que ignora-te. Cancro que cresce. Que morre. No frio das manhãs retornadas. Que te vê pelas ruas. Abandonado. De fé. Da crença mais próxima da fadiga. Na calçada, refúgio de noites e dias. Na calçada, pedras e lamas de teu corpo.Não sorris aos autóctones passantes. Não lhes mostras a podridão da tua boca. Que neles se confunde. Não olham. Trespassam-te. Na mão que lhes estendes. Trespassam-te em passos galopantes. Cinderelas de pé descalço. Cristalizado. No frio que sempre sentiste. Que ninguém mais sente. E na vontade que te aperta na cintura. Cavarás, na rocha dura. Cavarás com os dedos carcomidos pela fome. Abriga-te. Abriga-te na sombra do espelho. Homem. Incompleto. Homem. Sente a rocha a desfazer-te os nós dos dedos. Das mãos que batem fundo. Quando o fundo é apenas o teu peito. O osso estilhaçado, no olho. Não grites no silêncio da tua voz. Não grites. Atira as goelas aos cães. De rabos enfiados pelas pernas. Atira-as aos cães como tu. Aos cegos, indolores. Na escuridão sempre perdidos. Como tu.

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas (Sem votos)
Loading ... Loading ...

Publicado há 1 ano em Segunda-feira, Novembro 12, 2007 às 18:01 e está arquivada na secção Prosa Poética. Poderá seguir as respostas a esta entrada através da alimentação RSS 2.0.
Este texto está licenciado segundo a Licença Creative Commons.
Poderá deixar uma resposta ou trackback a partir do seu Web site.

Deixe um comentário

necessita estar registado para deixar um comentário.