Osso
Publicado por Catarina Silva em Prosa Poética |Nas feridas que prosperam, nos pés descalços, famintos. Andas. Sustado na própria dor. Alastras. Na culpa peregrina que ignora-te. Cancro que cresce. Que morre. No frio das manhãs retornadas. Que te vê pelas ruas. Abandonado. De fé. Da crença mais próxima da fadiga. Na calçada, refúgio de noites e dias. Na calçada, pedras e lamas de teu corpo.Não sorris aos autóctones passantes. Não lhes mostras a podridão da tua boca. Que neles se confunde. Não olham. Trespassam-te. Na mão que lhes estendes. Trespassam-te em passos galopantes. Cinderelas de pé descalço. Cristalizado. No frio que sempre sentiste. Que ninguém mais sente. E na vontade que te aperta na cintura. Cavarás, na rocha dura. Cavarás com os dedos carcomidos pela fome. Abriga-te. Abriga-te na sombra do espelho. Homem. Incompleto. Homem. Sente a rocha a desfazer-te os nós dos dedos. Das mãos que batem fundo. Quando o fundo é apenas o teu peito. O osso estilhaçado, no olho. Não grites no silêncio da tua voz. Não grites. Atira as goelas aos cães. De rabos enfiados pelas pernas. Atira-as aos cães como tu. Aos cegos, indolores. Na escuridão sempre perdidos. Como tu.

