bailados de deus e do diabo
Publicado por crucius em Prosa Poética |A chuva é maravilhosa. Lava a lama das estradas, rega os faustosos jardins, apaga os brilhantes fogos de uma guerra distante. Marte, no topo do seu trono, olha-nos com um suspiro. Olha para o lado, Vénus ainda não se levantou e Zeus lava os dentes. Nos seus escritos amaldiçoa. Amaldiçoou-nos, amaldiçoou-os. Desespera com cada aurora alada, cada milímetro do seu corpo a estremecer de raiva e fúria. O martelo está na mesa, inerte, gigante, pesado. Na sua dureza é frágil como um vidro, doce com um corvo que sente a falta de sua mãe e que não abandona por nada o seu ninho. É irónico, sarcástico, refugiado assim nos meandros da mente farta, desolada. É Rei sem reino, príncipe regente sem futuro. E sonha com o luar, com os corpos nus das suas musas de outrora, dos suores pungentes da vida feliz, pura na sua entrega animalesca. É Deus, é poderoso. É um pequeno gatinho a quem deram armas e escudos, sem saber como os usar. Aceita. Sempre quis mais do que si próprio, uma superação imensa e brutal que demanda mais de si que a busca do Graal, bebedouro dos pobres, alimento de gerações, ouro, jóias, rubis dos ricos e dos velhos. Não sou quem pensei ser. Nunca quis ser assim. Fui amado a cada dia da minha vida, que brotara como colorida e bela flor num infinito jardim, que acabou. E com ele…
Zeus está vestido. Vénus acorda. Marte suspira. O amor que era dele é agora do Pai, os seus objectivos são os d’Ele. E cá na Terra falam d’Ele, dos feitos do Máximo, da ferocidade e sabedoria daquele patriarca que com um só gesto destrói terras, cidades, até países!, e noutro ordena os Seus súbditos e os Seus filhos que cessem as suas actividades: resplandece. Falam da Guerra com lágrimas salgadas a jorrar pelas paredes, com o sangue brutal, vermelho como o planeta homenageador. Dêem-me galáxias inteiras, façam-me estátuas mil, ofereçam mil virgens! Já tomei a minha decisão. É de mim aquele quadro pintado a óleo, é de mim aquele altar. É de mim tudo e oh! é de mim nada e tanto… e deixo-me ir. Deixo a casa sozinha, conhecem-me bem. Fico isolado do outro lado do meu mundo, tanto amargo como doce, e fico estatelado numa singela placa de alvo fugaz, um ponto negro, o vazio.
Atrás de mim que deixo? Lembrar-se-ão de mim? Estou certo que nos corações de alguns estará lá o meu olhar, a minha simpatia, o meu génio. Faltou-me o chão para me segurar. Fui-me, vou para a Terra viver de novo, vou para a Terra recomeçar a ser alguém, que lembrem para sempre e com ternura.
Agora, sou carpinteiro.
Espraiam-se as velas abertas,
Solta-se o pavilhão alarve e fero,
Tocam as trompas da vitória,
Abrem-se os canhões do porão.
De popa a proa suspira o pirata,
Na vida que lhe fugiu como uma bala,
E lhe ficou em nada.
Cai a noite,
E mais um dia se passou,
Faz a tartaruga o seu buraco,
Nasce a vida outra vez.

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