Atlântida…
Publicado por crucius em Prosa Poética |Dizem-me nas histórias que em tempos idos havia um pequeno rapaz. Dizem-me também que nas histórias o pequeno rapaz tinha um negro manto, tão negro como a mais negra das noites de Inverno, onde as nuvens conspiram para descargas mil sobre a Terra azul que as fita, preocupada. Na preocupação não vê as pedras da calçada que se esculpem de bengalas velozes e pesadas, que gemem com a vida dos seus superiores voando a cada passo rumo ao infinito que os espera, num lufa-lufa de cor e alegria. Deprimida. Reprimida. Ida. Ira.
Cai cada gota como uma pedra pintada, um sopro recheado advindo do âmago feroz do Deus profundo do topo do Mundo, do Universo estrelado, do abraço pungente e circundante de além daqui. E daqui além nasce uma criança, um bebé rasgado ao ventre triste e violado de uma virgem de pano e papelão. Cai o sol que a iluminou, mais a lua das noites de verão e azul onde os sonhos são realidade fátua e inebriante e que se vão como incenso perfumado ou um traço de avião, que cruza os céus como quem circumnavega a esfera armilar e à proa se espraia e grita, a plenos pulmões, que a terra é sua… como se dele fosse. Como se dele fosse mais do que um rectângulo inerte, um prospecto em branco, uma vela apagada, um ninho vazio.
E mais além vai, como uma tela pintada do mais puro tom celestial, quando das mãos do pintor saem nada mais que mágoas reprimidas e pensamentos desolados. É dele a vida, o óleo que escorre por entre paredes e janelas fechadas, sob um tecto de ilusão. E o louco, da esquina da viela, faz o pino gritando em pulmões cheios que a Terra está do avesso, e que todos, na profunda da sua idiotice, vivem numa utopia inatingível e incongruente, bastarda de um paradoxo milenar pontuado por alusões indecentes à relíquia dos Céus. E do inferno grita o Deus encarcerado, longe do astro-pai que lhe dá energia, que o faz respirar. Vive a vida à sombra quente de uma grande árvore, esperando a cada dia que lhe caia uma maçã, ou talvez um pouco mais, e que com ela lhe caia o outrora fétido e soterrado.
E de brancas togas, eloquente e loquaz, Platão ergue as suas mãos aos céus e da Atlântida faz nascer o mito que virou obsessão dos nossos corações. Mas ela está dentro de nós. E vive…


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