Queda
Publicado por Venctus em Conto |A Rainha acordou dum pesar profundo.
Tudo aconteceu tão rápido,
Nem tempo teve para se defender.
A cabeça ainda pesa,
O corpo dormente pede mais um pouco de descanso,
Os ruídos corporais abalam os nervos mais infinos do sistema nervoso.
Tenta abrir os olhos muito lentamente,
Para discernir o que lhe rodeia,
Mas o nevoeiro visual dissipa-se a uma velocidade enervante,
E nada consegue ver.
Em esforço a Rainha agarra com punhos bem fechados a terra
Que se encontra por baixo dela.
Um calor momentâneo fá-la sacudir as mãos desesperadamente,
Apetece gritar mas nem forças tem para tal.
A Terra acabara-lhe de coser as mãos de tão quente que está.
Começa a sentir a temperatura que lhe rodeia,
A terra tornara-se uma caldeira em efusão.
O que é isto?
O que aconteceu?
Grita ferozmente a Rainha.
Tenta acalmar-se controlando a sua respiração.
Abre novamente os olhos,
O nevoeiro voltou como no inicio,
Um pouco de esforço e recomeça a desaparecer,
Olha para as mãos e repara que está toda queimada,
Levanta-se à mesma velocidade que recuperara
A pouca visão que possui.
O sitio onde está não é estranho,
Mas não faz sentido,
Ela deveria estar noutro lugar parecido,
Mas não como este.
Olha em volta e vislumbra árvores despidas,
Mas,
Parecem já mortas,
Escombros de casas por toda a parte,
Detritos de um local já antes habitado
Perduram na paisagem diante de si.
O silêncio é arrepiante,
Até parece que a Morte passara,
E a Vida não a seguiu como em tantas outras vezes.
Olha para o ar,
Repara no manto cinza enegrecido que a cobre,
Tenta respirá-lo,
O pouco oxigénio que o circunda fá-la arfar e tossir.
O que aconteceu?
Repete a Rainha milhares de vezes para o seu ente.
Lembra-se vagamente de um embate oco,
E nada mais,
A memória atraiçoa-a.
Começa a caminhar em direcção à costa,
Como fizera tantas outras vezes em criança quando fugia dos pais,
Um relance de uma lembrança fizera o coração saltar o passo.
Aquele não era o lugar onde crescera e vivera,
Não podia ser.
O caminho não o mentia.
Em passo arrastado lá chegara.
A falta de som marítimo fê-la arregalar os sentidos.
O mar desapareceu?
Não pode ser…
Um forte abalo sacode a terra
E a pobre Rainha estatela-se no areal,
Finalmente lembra-se do que aconteceu,
Novamente o abalo,
Só espera não perder novamente os sentidos.
Hélio desaparecera no manto negro,
Helionora preparava-se para o seguir.
Assustada olha para o lugar onde deveria estar o oceano
E vislumbra uma montanha ao longe,
Parecia mesmo uma montanha,
Esfrega os olhos e fica muito mais perto,
A sua grandeza abala-a,
Tenta rastejar para trás mantendo
Aquilo que parecia uma parede de água
No seu alcance visual.
Levanta-se e cai novamente,
Olha para trás,
O enorme cristal partira-se,
Atlântida sucumbirá dentro de momentos.

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