Foram os dias e as noites demasiado longas…
Esteve escuro a maior parte do tempo…
E era quase sempre um silêncio avassalador entre as frestas da janela. No meio da escuridão.
Era um silêncio cheio do meu ruído interno…
Era ensurdecedor… o silêncio.
Deitada na cama que era o chão, eu fiquei na escuridão.
Irrompi numa manhã quente de Julho. Abri a porta. Enfiei-me no duche.
Forcei-me a sentir a água. Estava embotada. Eu. Não sentia.
Não era a água. Era eu. A água fria. A espera.
Forcei-me. Novamente. A roupa. Vestir-me. Um acto de violência extrema.
Permaneci na escuridão um pouco mais.
Na ânsia. Na expectativa. No medo.
Não me descobri. Saí. A luz feriu-me os olhos. Nunca tinha estado tanto tempo no escuro.
A rua. As pessoas. Os sons. O calor. Os espanhóis. Demasiado ruidosos e alegres. E eu.
Feita de cores muito diferentes das ruas. Dos cheiros. Dos outros.
Subi a rua. Subi a escada. Entrei na biblioteca. Olhei para ti.
Não me dirigiste uma única palavra. O teu olhar disse tudo.
Nele vi. Ouvi. Senti.
Tu. Sempre tu. Porque estás aqui tu? Não fugiste tu? Não deixaste de me amar tu? Não deixaste de acreditar tu?
Aquele olhar gritante. Aquele olhar que dizia:
Não te disse que não te amava? Não te disse que devias ter fugido de mim? Não disse que me tinhas deixado de amar? Que isso tinha sido culpa minha? Não destruí os teus sonhos? Não te disse que não devias acreditar?
Aquele olhar que se encontrou com o meu, em que compreendi tudo isso. Aquele olhar inequívoco.
Esquece-me enquanto vais a tempo.
Sim. Gritava eu. Sim. Esqueceria. Não amaria. Destruis-te os meus sonhos. Mas avisaste-me que seria assim.
Não.
Eu acreditei. Eu amei. Eu construí-te. Sonhei-te.
Fui eu. Sempre eu. A culpa é minha.
Viro costas. Os nossos olhares gritantes devem ter ecoado nas paredes da biblioteca. Ressoado nos livros. Devem-se ter esbatido nas canetas silenciosas.
Não ouvi passos. Fugi. Como eu fugi. Desesperada.
Não me queria ouvir mais. Os meus passos.
A minha mão trémula a procurar a chave da porta.
Encarcerar-me outra vez. Procuro abrir a porta uma e outra vez. Quando finalmente ela se abre.
Corro. Corro.
Um e outro e outro lance de escadas.
O nosso terceiro andar. As nossas escadas. As nossas janelas. A nossa vida. O nosso fim.
Não te vejo entrar. Quando me abraças o mundo deixa de existir. E eu…
Eu continuo a acreditar…
Como me impacientas…
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