19 Agosto 2008

O casamento

Publicado por Sahaisis em Conto |
Gostava de te agradecer o conto de fadas…

Ficou suspensa. Sem respirar, à espera de um comentário certeiro que acabasse com aquilo de uma vez por todas…

Esperou e esperou…

Ele continuou ao cimo da escada, olhando-a de cima, no seu fato impecável com aquele ar expectante, indecifrável…

Talvez tivesse sido daquela vez no autocarro quando vinham de Serralves…

Sim, tinha sido aí que ele tinha reparado nela…

Ou pelo menos assim ela pensava…

O jardim, o chá…

O passeio…

Eles não tinham conversado, apesar de ele se ter sentado ao lado dela.

Ele tinha reparado secretamente que ela se tinha mantido distante, apesar de ter conversado com toda a gente.

Ela tinha-se entretido a fotografar. Tinha fotografado sobre todos os ângulos que pôde o jardim. O pasto. Um gato que havia no pasto.

Tinha-os fotografado a todos, juntos, em pequenos grupos, conversando, rindo.

Tinha fotografado o seu pé, numa rocha no meio de um daqueles riachos que lá há.

Quando lhe perguntou porquê, ela respondeu que achava piada à combinação do pé, pedra e àgua em redor…

Ele reparou que ela fugia das fotografias…

Achava-a um bocado tonta. Sempre que falava dizia um disparate, ou era incoveniente.

Mantinha-se à parte. Não era tão culta como eles. Ou melhor, era culta de uma forma diferente…

E isso notava-se.

Foi a conversa no autocarro e a doçura dela quando falava…

Então tu estudaste direito, não foi?

Ele tinha percebido que ela falava com toda a gente para não a questionarem…

Sim…

Eu gostava de estudar direito…

Tu?! Mas pensei que já eras formada…

E sou. Mas gostava de voltar a estudar…

E falou-lhe, do que a fascinava no direito.

Mas pensei que gostavas do teu trabalho.

E gosto, mas não quero fazer isto o resto da vida.

Foi a confissão ao jantar.

Perguntara-lhe a avó que, com aquele ar observador, já percebera que a Zé não estava feliz.

Como vai o teu namoro com o cirurgião minha querida?

Avó… aquilo não é bem namoro.

Eu gosto dele, mas não gosto dele para viver o resto da vida, como o Pedro e a minha irmã vão fazer.

Não estou feliz, mas também não estou triste.

Tinha-lhe dito a avó que ficava triste por ela, e alertara-a para não magoar os sentimentos do rapaz…

No dia seguinte ela estava qualquer coisa. Não era bonita.

Mas havia qualquer coisa de irresistível no cabelo, no perfume, no vestido. O vestido dela era qualquer coisa.

Estavam a dormir todos na mesma casa.

Ele ouvira-a a chamar a noiva de manhã e procurara vê-la na escada enquanto discutiam aquelas trivialidades das mulheres que os rapazes ouviam no andar de cima.

Ele viu-a primeiro. Ela não lhe prestou atenção. Não o viu. Nem o notou a olhar para ela. Ele era um homem discreto.

Ele riu quando a tia do noivo lhe perguntou se ela não vestia um casaco que lhe tapasse o decote. Ele desejou que ela não o vestisse. Ele percebeu esse desejo em si.

Não dançaram, não tiraram fotografias juntos, não trocaram um único olhar naquele dia.

Ela não lhe sentiu a falta. Nem pensou nele.

Na tarde seguinte tinham ido passear à Ribeira. Ela manteve-se longe.

Mas ele recordava com pesar aquele momento em que ela pedira ao António que lhe prendesse o vestido. Queria ter sido ele a puxar o fecho. Se ela lhe tivesse pedido, ele teria ficado enlevado o resto do dia. Saber como era… o que se sentia quando se tocava na pele dela…

E depois tinha vindo a noite, depois do jantar. Eles tinham ficado na sala. E ele mostrara-lhe aquele livro dos tempos da infância que compilava alguns contos de fadas.

A Luisinha sentira-se mal, percebeu que entre aqueles dois havia qualquer coisa. Qualquer coisa que não lhe agradava. Achava o João um rapaz garboso e tinha pretensões de levar a bom termo as suas más intenções em relação a ele.

Saiu da sala despeitada. Aquilo era uma vergonha, que toda a gente sabia que a Zé namorava com um médico de Lisboa.

Ela já tinha um namorado rico e bonito. E nem sequer era bonita…

O João era a esperança secreta da Luisinha de sair de casa dos pais, casar e ter uma vida elegante.

E agora ali estavam eles sozinhos na sala, sentados ao lado um do outro, ela a ouvi-lo respirar e a perceber que havia ali qualquer coisa que a desnorteava.

Foi precisa toda a coragem para lhe perguntar…

Diz-me Zé, qual é o teu tipo de homem?

Ela fixou o olhar no infinito. Corou como não corava desde os tempos da escola.

Não sei…

Quer dizer, bem…É complicado…

E tu? Qual é o teu tipo de mulher?

Ela enrolava as mãos de tal forma na saia que ele lhe via os joelhos. Corou também ele. Era a combinação da pergunta com as pernas dela.

Bem… Gosto de mulheres… Bem, gosto de mulheres… fofinhas…

Ela teve vontade de rir. Mas lá se controlou…

Despediu-se dele ao pé do primeiro degrau da escada. E depois viu a sua máquina em cima da arca.

Queres ver as fotografias?

Sentaram-se no degrau, juntos…

Ela teve a tentação de lhe tocar na mão, mas refreou-se…

E quando percebeu tudo aquilo que não tinham dito levantou-se e disse-lhe boa noite.

Enquanto descia a escada, enquanto vestia o pijama, enquanto se deitava ao lado da Maria na cama que partilhavam por força da lotação da casa só conseguia pensar nele.

A Maria surpreendeu-a. Então, o que se passou?

Ela contou-lhe. Maria riu-se. Nunca imaginei que o rapaz tomasse tamanha liberdade. Sabes que ele é muito tímido?

Mas eu tenho namorado Maria.

E então?

Não lhe digas já que não, vamos ver o que acontece…

No dia seguinte a Zé subiu a escada para o chamar para o pequeno-almoço, bateu à porta e acordou-o.

O João achou que o sorriso dela enchia o quarto, e a manhã e a vida de cor.

O João teve vontade de lhe dizer para ela mandar o cirurgião pastar e pedi-la em casamento logo ali.

Mas limitou-se a dizer-lhe “bom dia” e a puxar a coberta até acima para ela não ver o em tronco nu.

Mas ela já tinha visto e a tentação de lhe dar um beijo tinha-a feito corar.

Saiu do quarto e desceu a escada a correr…

No dia seguinte despediram-se…

Gostava de te agradecer o conto de fadas…

Ficou suspensa. Sem respirar, à espera de um comentário certeiro que acabasse com aquilo de uma vez por todas…

Esperou e esperou…

Ele continuou ao cimo da escada, olhando-a de cima, no seu fato impecável com aquele ar expectante, indecifrável…

Não disse nada…

Só o silêncio restou de todas as coisas que tinham sentido e imaginado nos dias daquele casamento…

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Publicado há 3 mêss em Terça-feira, Agosto 19, 2008 às 20:49 e está arquivada na secção Conto. Poderá seguir as respostas a esta entrada através da alimentação RSS 2.0.
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