Uma diferença
Publicado por Sahaisis em Fugas |Baralhei-me.
Porque te remexi.
Ou porque me remexi e te reencontrei. Não sei…
Estou farta destes nossos jogos inúteis, que servem apenas para me relembrar a nossa enorme incapacidade de fazermos o que bem entendemos com a nossa existência.
A vida é uma inevitabilidade. E isto de morrer é uma certeza. Não um dos nossos jogos inúteis.
Foste meu professor. O melhor que pude ter.
Juro por tudo aquilo em que acredito, que te amei desde que pus os olhos em ti pela primeira vez.
Olha… Não sei como te dizer isto, mas havia qualquer coisa em ti que me fazia levitar. Que me fez levitar em todos os momentos que passei naquela enfermaria.
Lembro-me do primeiro momento em que te vi. O teu cheiro. Os teus olhos. A cor da tua pele.
Lembro-me de tudo isso.
Revivo todos os momentos com uma clareza pungente. Apaixonei-me por ti naquele primeiro momento.
Reconheci-o em mim no dia em que te fiz frente.
Eu uma miúda imberbe, a esbracejar numa multidão de batas brancas e tu um homem imponente que se destacava da multidão.
Lembro-me tão bem.
Quando te disse que discordava, parecia que eras um miúdo e que te tinham tirado o brinquedo das mãos.
Acho que te apercebeste da minha existência nesse momento.
Lembro-me de me teres dado razão, mas não em frente a toda a gente, que te feria o orgulho…
Lembro-me de teres dito que erros iam acontecer e que inevitavelmente mataríamos pessoas ao longo do nosso caminho.
Que era uma inevitabilidade. Que tínhamos que nos certificar que fazíamos tudo para que não acontecesse. Mas que iria acontecer.
Lembro-me de te ter perguntado se acreditavas em Deus.
Lembro-me de teres dito que não, que Deus não aparecia para salvar um doente em paragem, que nesse momento só lá estavas tu, e que ao contrário de Deus tinhas uma taxa de eficácia de 90% nas reanimações que fazias.
Achei-te arrogante. O expoente máximo da arrogância diante dos meus olhos.
Mas como te admirava.
Se pudesse seria um patinho atrás de ti para onde quer que fosses.
Mas não podia.
A distância era clara e massacrava-me. Assaltava-me durante a noite. Dizia-me como era perigoso apaixonar-me por ti.
Como isso podia ser prejudicial para quem queria firmar uma reputação sólida e independente.
De como uma ligação contigo podia levar as pessoas a dizerem que eu era Eu porque tinha uma ligação amorosa contigo.
Não queria isso para mim. Fechei-me. Fui o mais desagradável que pude contigo.
E depois veio aquele dia. A minha primeira urgência. Toda eu tremia.
Que nos livros é tudo muito linear, mas quando as coisas ganham vida à nossa frente…
Foi a tua mão no meu ombro, que me fez acreditar. E no fim, depois de o doente nos ter morrido nas mãos, abraçaste-me.
E quando me ias soltar, prestes a fazer-me uma festa no cabelo (naquele gesto paternal que fazemos a um miúdo quando ele não consegue ganhar o jogo, apesar de se ter portado bem), abracei-te novamente.
Naquele abraço estavam todas as coisas que eu nunca tinha gritado. Tudo o que eu tinha amordaçado em mim, para não te dizer.
Era gritante aquele abraço. Escandalosamente gritante.
As minhas mãos nas tuas omoplatas que desceram para puxar os teus braços para a minha cintura, a minha cabeça colada ao teu peito…
Toda eu encostada ao teu corpo, como se me quisesse colar a ti.
Disfarçaste o melhor que pudeste. Mas tinhas percebido. Claro que soubeste o que vagueava cá dentro.
Aquele jogo continuou por um tempo que me pareceu infindável. Um dia puseste cobro àquilo.
Era Inverno. Na praia. Lembro-me de ti recortado contra a imensidão do mar.
Trocámos um beijo que era inevitável. Que é indescritível ainda hoje.
Já o vivi, já o revivi, já o dissequei mil vezes.
Sabe-me sempre ao amor mais intenso que tive.
Sabe-me sempre há coisa mais intensa que vivi. Há coisa que mais viva me fez sentir.
Não há maneira de resolver isto. Foste tudo o que alguém pode ser para outrem quando se fala de amor. Foste. Para mim.
E digo foste, porque hoje me baralhei, remexi nas coisas antigas da minha existência e relembrei aquele dia cinzento em que deixei de ser eu e de acreditar em mim.
Morrer é certo. Até se morrer, estar vivo inevitável. Mas ser-se vivo, não.
Era de madrugada. Era de madrugada e a noite tinha sido caótica.
Faltava entrar o último ferido de um despiste brutal que tinha havido numa auto-estrada qualquer.
Lembro-me de alguém me ter prevenido. Alguém me disse, “olhe que o homem vem todo partido, o mais provável é não se safar”.
Lembro-me de ter pensado que eu também estava toda partida e ainda assim tinha de me safar.
Nem vi a cara. Soube instintivamente.
Sabemos sempre, há qualquer coisa de instintivamente animal e protector em nós, que nos sussura ao ouvido, que nos diz “hoje é a tua vez”.
Paraste, o teu coração parou à minha frente enquanto te procurava uma veia, mirrada pela falta do sangue que tinhas perdido pelo caminho.
E eu só me perguntava, porque diabo não tinhas ficado aconchegado a dormir na minha cama, onde eu te tinha deixado?
Porque raio não estavas tu com a tua taxa de eficácia de 90% no meu lugar?
Como podia eu ter força para te dar o murro pré-cordial que abriria caminho à tortura de uma reanimação que ficaria na margem dos 10% que a tua experiência e talento não cobriam?
No fim segredei-te ao ouvido que te amava.
Quem me dera ter-te dito isso todos os dias, desde o dia em que soube dessa extraordinária verdade em mim.
Nunca mais me desculpei. Nunca mais te perdoei ou me perdoei a mim.
Nunca mais fui eu.
Acho que nunca mais fui viva.
Estou mas não sou…
