Amor profundo amor
Publicado por Sahaisis em Fugas |Meu amor…
Quão tola, quão vã é esta carta que te escrevo…
Nunca quiseste o meu amor.
Pelo contrário, o meu corpo foi para ti profundo objecto de desejo em diversas ocasiões.
Ele atormentou-te nas noites de Verão em que sonhavas e desejavas fazê-lo teu pela primeira vez.
O corpo. O corpo foi o que te atormentou.
A mim foste tu. Desde o momento em que li a tua carta, deixada por engano no vão da minha escada.
Vi-te encostado à parede de mármore, naquela manhã radiosa em que eu não tinha dormido.
Ansiei-te quando entrámos juntos no carro.
Desejei-te quando me sentei ao teu lado no sofá e te segurei a mão, como uma criança pequena.
Ou como a mulher medíocre que não tinha (nem tenho) tensões de ser…
Naquele momento era o desejo que te consumia.
Não eu. Nem o meu sentimento por ti.
Encaixaram-se os corpos. Não nos encaixámos nós.
Não te satisfiz. Não te preenchi.
Que crueza tamanha para dizer as coisas.
O corpo era bom e doce. Jovem e flexível. O corpo servia.
Mas para contradizer aquilo que te revolvia por dentro houve um momento em que te suplantaste.
Eu adormecia a teu lado. Em paz comigo. Em paz contigo e com os nossos corpos.
Revolvi-me aninhando-me em ti e disse que te adorava. Fechei os olhos.
Um pouco depois senti o teu braço na minha barriga e a tua outra mão no meu cabelo. Ouvi-te murmurar que também me adoravas.
A nossa história adensou-se. Um dia disseste-me que gostavas de mim. Mas que o sentimento não era igual.
Disseste que não te voltarias a apaixonar por ninguém. Não era culpa minha. Nem tua.
O teu coração tinha empedrenido no estio do Verão, pela traição de uma outra qualquer anterior a mim.
E eu aqui, a ouvir-te ditar a sentença que transformava o meu sentido de ti em profunda mediocridade.
Aceitei que gostasses menos de mim. Porque ainda que menos era gostar e eu podia viver com isso, se pudesse continuar a viver contigo.
Muitas teias dentro de mim se construiram desde aí.
O meu amor…
O meu afecto…
A profundidade do que sentia era tão grande que quase que já não cabias lá dentro.
Um dia perguntaste-me o que tinha acontecido. E disseste o meu nome. Disseste-me que precisavas de mim. Que sem mim não ias conseguir.
Aconteceste-me tu. A insuficiência dos sentimentos que não sentimos, que jamais poderão conter ou abarcar coisas tão simples como um abraço, o toque de duas mãos, ou as coisas verdadeiramente grandiosas da nossa existência e finitude humanas. Como o amor.
Não me amaste. Mas também não me secaste. Continuei a amar-te, passado indefinido de um presente concreto, que se substancia e revela em todas as pequenas coisas de mim que te dou.
Continuo a amar-te então neste presente obscuro, raiado de ausência e de saudade, em que te tento explicar nas minhas palavras promíscuas que qualquer um pode ler como a ânsia que tenho de ti é profunda e avassaladora.
Em que te grito a crença que o meu amor poderá ajudar a suster o teu sonho e a fazer-te Homem.
Ainda que o meu corpo e as suas possibilidades de fascinem e o meu amor por ti seja de somenos importância.
Há em mim a urgência implícita de um dia me conseguir mudar misturada com a ânsia de que um dia tu consigas fazê-lo.
É uma espécie de crença inelutável que sustem este amor, profundo amor.
Esta coisa primeira, última, única e essencial de mim.
Reconhecida na pele, e gravada a lágrimas, a dor e a desilusão num sítio remoto do meu peito, onde a tua pele não chega.
Meu amor, meu tão profundo e sentido amor, ainda acredito em ti.
E ainda aqui estou…
Não sei até quando.
Porque ambos sabemos que aquilo que não é alimentado não sobrevive.
É essa a bestialidade humana a que jamais sobreviveremos…
Amor profundo amor. Meu.

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