Alma Madrilena errante
Publicado por Sahaisis em Fugas |É assim que te imagino. Diáspora vaga e suave de mim mesma.
Um traço fino pintado daqui a muitos anos.
Má sorte tapada pela boa sorte que a remedeia, caminhos errantes de vida. Terei uma filha espanhola.
Um traço firme. Feito a carvão num bom papel. Pintado com as tuas e com as minhas mãos.
Vaticinaste para ti que não querias uma filha mulher. A vida há-de abençoar-te com esta.
Criada no meu ventre. Fruto do nosso tempo incerto. Um dia daqui a muitos anos. Quando nos conhecermos verdadeiramente. Faremos esta filha.
Uma boa Alma no mundo. Uma Alma Madrilena errante.
Fruto de um homem que salvará a minha vida e de uma mulher que trás vida ao mundo.
Será um sortilégio abençoado com a minha ligeireza e bom humor e com os teus profundos olhos azuis.
Abençoará o mundo. Será infinitamente melhor que nós.
Não será plena das nossas incertezas.
Não nascerá em solo português para a podermos privar de sentir esta contaminação preversa da saudade.
Não se apaixonará como nós. Vamos proibir-lhe apenas isso.
“Não vivas aquilo que os teus pais viverão.
Sê sensata. Escolhe o caminho mais curto, mais próximo e linear.”
Faremos com que se crie sozinha. Como água. Com livros.
Aprenderá a Ser por si.
Não a contaminaremos.
Será bonita. Sensata.
Será a nossa Alma Madrilena errante. Mesmo que nasça no canto mais frio do mundo.
Mesmo que não nasça de nós.
Mesmo que nunca chegue a existir.

(5 votos, média: 4.4 em 5)