Perseguição
Publicado por José Espírito Santo em Conto |Anoitecera e eu ali, só e encolhido, no interior do apertado esconderijo. Este processo ou acto de fuga, repetira-se nas últimas noites qual dança combinada, qual diálogo frenético entre mim e aquele incansável perseguidor.
Ajoelhado junto dos caixotes, inclino a cabeça para a frente e espreito a diagonal com cuidado, de forma a não revelar a minha presença. Para lá da esquina, na penumbra, o silêncio do corredor estreito deserto quase me convence e me faz certo de tê-lo despistado. Mas não! Não tarda que ouça os seus passos, o trote rápido e caótico. Lá vem ele de novo.
Descubro o vulto, adivinho-lhe os contornos do corpo, as orelhas pontiagudas, os olhos brilhando vorazes na escuridão. Aproxima-se rapidamente, é certo que em poucos segundos estará aqui. Não me vê mas sabe que estarei por perto, de repente, estaca pressentindo-me. E ao fazê-lo, emite os sons. Vários. Altos. Em completo despudor, fazendo assinalar claramente a sua presença.
Avalio as opções: À direita, o caminho termina numa varanda estreita e consigo até ver os edifícios perfilando-se do outro lado da rua. Mas nem os melhores esforços e concentração me conseguiriam um salto eficiente de forma a alcançá-los. E o falhanço estatelar-me-ia sobre o trânsito, ossos esmagados no alcatrão ou em qualquer chapa metálica, uns bons quarenta metros abaixo.
Recuar, é outra hipótese. Posso fazê-lo e tentar a dissimulação, a camuflagem, misturar-me com as pessoas que vejo preparando as refeições. Mas seria um beco sem saída. E ele por certo distinguir-me-ia facilmente dos restantes e trataria de mim sem se importar minimamente com os outros…
Resolvo, pois, optar por uma terceira via: a manobra de diversão que me ganhará o tempo e sorte de fuga. Atiro com força o objecto esférico, a bola aos quadrados pretos e brancos que passa ziguezagueando veloz pelo meu perseguidor. Ao vê-la, ele agita-se e volta-se quase no mesmo instante em que me levanto e corro.
Ultrapasso-o como uma seta e, antes que entenda bem como, estou já alguns metros adiante. Mas não vejo a armadilha feita de objectos que me esperam espalhados no chão. E desamparo-me no tropeço. E caio.
Poderia até ter-me levantado se não tivesse sido tudo tão rápido. Mas, as forças não ultrapassando tempos, um só relance e ele já se vê de cimo de mim, envolvendo-me, dominador. Já me segura firmemente, a sua boca a abrir-se, os dentes a deixar-se ver no que parece ser um…
Riso?
Sim. Definitivamente.
– Apanhei-te. Apanhei-te, papá!
E Mariana ri, riem as bandeiras despregadas nela e na máscara. No fato pequeno e vermelho e amarelo, de monstro. Aquele mesmo que tínhamos comprado recentemente na loja do Silva para usar no Carnaval.
