26 Setembro 2007

Reencontro…

Aquele era o hotel das suas escapadelas. Não com outras mulheres, porque tinha sempre sido fiel. Era o seu refúgio quando o casamento e os três filhos exigiam demasiado dele. Bastavam-lhe dois ou três dias para que pudesse regressar a rotina dos dias, de todos os dias. Não mentia a mulher, dizia-lhe que ia passar uns dias fora, e agradecia que ela compreendesse. Aliás, era uma rotina que ambos praticavam e que tinha feito com que a união de 15 anos se tornasse mais segura. Mas esta vez tinha algo de diferente. Ela tinha saído de casa dois dias antes. Tinha partido com um olhar estranho. Como se algo estivesse em risco. Eram proibidos os contactos entre eles durante esse período. As regras eram conhecidas. Mas ele não estava a aguentar ficar em casa com esta incerteza. Pediu então à mãe que tomasse conta dos netos por uns dias e partiu para o seu hotel. Precisava de um certo sossego para pensar no seu futuro. No futuro deles.
Chegou ao início da tarde. Em Setembro o calor ameno, sem vento, convidava mesmo a uns dias de ferias. O gerente, velho conhecido, saudou-o com o sorriso de quem vê chegar um amigo.
- Quer o quarto do costume, senhor doutor?
- Já me conhece. Sou uma criatura de hábitos.
- Nunca se sabe o futuro. – retorquiu o homem atrás do balcão.

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Publicado por Francisco del Mundo e colocado em Conto | 2 Comentários

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19 Setembro 2007

O Homem da Flauta

Durante a minha ida ao norte onde fui passar o Songkrang, ano novo tailandês, como habitualmente fico na casa da mãe de minha companheira na aldeia de Ban Mea Long, uma pequena povoação situada a cerca de 18 quilómetros da cidade de Lampang. Desta vez, no ano de 2006, tivemos mais tempo para podermos visitar mais mosteiros budistas, nesta altura do ano a abarrotar de fiéis, mas um local que sempre visito é o muito concorrido mercado Kad Tung Kwiang, que se situa à berma da auto-estrada que liga a cidade de Lampang à capital do norte Chiang Mai.

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Publicado por toi cambeta e colocado em Conto | 0 Comentários

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4 Setembro 2007

Biblioteca

sou biblioteca de livros valiosos e antigos
encontras aqui muitas histórias
fantasia, aventuras, amor e perigos
desabafos, diários e memórias.
respiro o amor e o sofrimento dos poetas e trovadores
partilho as suas conquistas e as suas dores
Carrego em mim sonhos de infância
e das mais nobres senhoras a sua elegância
retractada na sua escrita elegante e fina
mas com um coração que por amor desafina.
Sou dono de segredos, amores proibidos e traições
editor de livros e canções.
Não me sinto envelhecido ao contrário do que me acusam
esses de agora que não me ligam e só de mim abusam
Podem passar mil dias, mil anos, mil séculos
que os meus livros nunca se tornarão obséquios
não são somente livros que trago em mim
e por isso esta minha revolta, e o meu motim
são pessoas! Pessoas! Não podem ignorar
os seus sentimentos, o seu pesar
Pois elas mostraram a Vida no seu real esplendor
e sendo assim todos os livros merecem o vosso louvor.

Publicado por lastprophet e colocado em Conto | 0 Comentários

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23 Agosto 2007

Tu em Mim!

Perco-me a tentar imaginar como seria passar um mês a teu lado…
Imagino-te à noite a olhar-me enquanto escrevo passando as mãos pelas minhas costas nuas, depois eu deito-me como de costume enquanto tu vais à marquise ver as estrelas pela última vez, prende-las todas no olhar, deitaste ao meu lado, deixas que o meu corpo te aqueça e olhas-me nos olhos entregando-me a beleza e a luz de todas as estrelas que viras que comparativamente ao teu ser têm uma luz bassa. E fazemos uma maratona de olhares e de toques que duram toda uma noite até adormecermos por fim agarrados um ao outro, a fundirmos os nossos corpos como se não existisse amanhã.
Imagino-me a acordar a teu lado e ver o teu rosto parado a um palmo de mim a observar-me, depois fazer desse palmo espaço nenHum… beijar-te.
Perco-me na imaginação… passar um mês contigo, sonho, realidade, o impossível acredita-se sempre e torna-se possível nesse acreditar, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e as nossas almas são tão grandes!

“…um mês para saber se tu serias mesmo eu e eu tu!..”

Publicado por Margarete e colocado em Conto | 3 Comentários

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2 Abril 2007

Tempo predador

O dia levanta-se e eu, em jeito de preguiça, levanto-me atrás dele para o agarrar. O sino já toca lá fora, diz que já são horas, já são horas e quinze, horas e meia, horas e quarenta e cinco, mais horas do que gostaria e, apressada, vou a correr que já não tenho tempo. O sol elevado estreita-se na parede branca do quarto, nunca chega à janela da cozinha e tenho de tomar o meu café na penumbra que não há tempo de ser diferente. O banho fugido, as roupas de ontem, que outras custam a escolher, o cabelo as is, a cara mais vincada que ontem, que o tempo passa, corre, e os traços desbotam-se na pele. Desço as escadas e desço as escadas e desço as escadas, que as escadas que me levam da minha casa são infinitas, olhos no chão, às vezes em frente, mas vem alguém e eles tornam-me a cair, que só tenho um propósito, um único propósito, que é mais um dia, e não é esse de olhar em frente. Passo o cartão, abre-me a porta, corro escadas a baixo, cuidado para não escorregar, de dois em dois degraus que o metro já lá está, e as pessoas invadem a sua entrada, travam a minha passagem, colocam-se na minha frente, que elas não me vêem e eu as não vejo, olhos no chão, o apito grita agudo, as portas fecham-me do lado de fora, as pessoas de dentro olham-me pelo vidro e não me vêem, porque os meus olhos estão colados ao chão. Sento-me no banco corrido, o mais longe que puder do que já lá estava, não quero incomodar, não quero que me vejam, olhos no chão, joelhos ao peito, à espera de outra oportunidade.

Publicado por Flower e colocado em Conto | 9 Comentários

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