14
Julho
2008
É bom sentirmo-nos assim…
Está tudo bem, está tudo óptimo!
É bom quando o nosso desejo se realiza…
É bom quando atingimos a nossa meta, depois de muito esforço e suor…
É bom quando finalmente conseguimos vencer o que nos atormentava…
É óptimo sentirmos que está tudo bem…
Finalmente está tudo bem!
Publicado por euzinha e colocado em Crónica, Fugas |
26
Dezembro
2007
Sinto-me um garoto atirando com uma pedra no charco da minha infância, qual sólida força da nostalgia que o vento do tempo não permite à poeira cintilante e minúscula poisar, nem no topo crepuscular da intrépida gigante torre da razão pungente, mal assente, ausente, ansiosamente sua quando de minha nada é. Fica a vida atrás de mim. Aquela que nos anais mais celestes do terreno e vil mundo vai-se passeando singela e pululante qual força centrífuga de motora que é, e que nada faz andar. Um cavalo sem carruagem. Uma carruagem sem dono. O dono…ah! o dono! Quem lhe dera ser ele cavalo e pastar em verdejantes prados, ou de cinzentos tristes nutritivos, e que da vida nada lhe pese senão as pernas que hirtas vão sentindo a brisa de mil mortos que estando vivos deambulam como sonâmbulos. Irra! E é de nós este planeta, esta niilista existência que faz de Nietzsche pedrinha no sapato do gigante pé da moral. Haja paciência para se viver! Haja paciência para se ver morrer… quando o sol, ou o sorriso, não nasce senão num canal de televisão. Viva-se da internet, viva-se do petróleo! Perca-se a vontade de se ser titã num mundo de pretensiosos fétidos e ignorantes, nem deixem os outros, os da potência, exalar fumos do incenso queimante do inconformismo… é que a ele sucumbiram. Dele têm agora lápides de mármore negra e gravuras douradas… e ainda temem atravessar as paredes da vida! Perderam o Amor de vista, são náufragos num oceano de porcaria.
Nem um sifão…
Publicado por crucius e colocado em Crónica |
12
Outubro
2007
Sempre me interroguei acerca do facto das catástrofes reunirem muita gente. A meu ver, demasiada.
Estamos constantemente a ver acidentes e incidentes, desastres naturais e provocados, suicídios e homicídios, e gostamos sempre deles. Onde se já viu, em pelo início de telejornal, uma noticia relacionada com um encontro entre mãe e filho ou entre avó e neto? Aqueles bonecos pomposos, com ar de pessoas importantes e cabelos ridículos, começam sempre por ler (e muitas vezes bastante mal), numa espécie de monitor milagroso, as palavras da ordem do dia, invariavelmente terroríficas: “Boa Noite. Horror em Bagdade! Cinco membros das tropas Americanas morreram, e outros cinco ficaram gravemente feridos. Quanto aos terroristas (vá-se lá saber quem são), estimam-se vinte mortos e dez feridos. George Bush já anunciou que isto não se vai repetir, pois o numero de baixas de soldados norte-americanos é demasiado grande”. Todos os dias os amantes das notícias têm de levar com isto… Isto é, ao que parece gostam.
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Publicado por crucius e colocado em Crónica |
5
Abril
2007
O dia já vai avançado e eu continuo a lutar contra uma memória. Contra um passado que não posso corrigir. Não consigo desligar-me. Já tentei diversas vezes inspirar com força a realidade, mas ele insiste em agarrar-se às moléculas de oxigénio que me entram corpo adentro. Sou um farrapo. Não tenho controlo. Fecho os olhos e ele está à minha frente. Imóvel. Estende-me a mão, abre-me um sorriso. Está tudo bem, sinto que sim. Sinto que nada de errado aconteceu e continuo a poder usufruir da sua presença. Quem me dera! Rosto esguio e sardas no nariz. Magnífica alegria de viver. Aquela de que eu tanto precisava. Continua igual. O tempo não passou.
A vida interrompe-me e eu disfarço a custo a minha confusão. Uma mão que me acaricia e que não tem dedos afunilados. Um rosto sério sem proeminências. Uma pessoa não é outra e, por muito que eu queira, não posso retornar o tempo.
Vou colocar o véu, vestir negro. Vou acender uma vela. Lançar as cinzas do topo da montanha, daquela de que só ele e eu sabemos. Vou desejar que o seu espírito voe alto e feliz na sua nova vida. A mim, resta-me o luto. E arrancar de dentro este pedaço que ainda é seu corpo e alma e sal. Foi numa Páscoa que aconteceu esta morte.
Vou manter os olhos abertos para que os fantasmas não regressem em sonhos, recordando-me de momentos doces que fazem doer no coração.
Publicado por Flower e colocado em Crónica |
5
Abril
2007
Chega a Páscoa e com ela a alegria da família, mas também a história do sacrifício e da fé.
Tenho receio. Acordo e adormeço em receio. Um dia pode bem ser o último dia. O meu último dia, o nosso último dia.
Tenho receio. Não digo medo, porque cedo no peso dessa palavra, prefiro receio.
Suor frio, face pálida e brilhante. Mãos delgadas e escorregadias.
Tenho receio. Um dia acordaremos, mas não adormeceremos. E esse dia pode estar para breve.
E se dias há, que fico paralisado neste meu terror, outros há em que a Primavera me entra janela a dentro, vistas a dentro, alma a dentro. E volto a sorrir…
Mas um dia, um dia moeda ao ar…
Estaremos…
Sem Sol ou outras estrelas no horizonte.
Sem fome e sem sede.
Semeados brilhos ora foscos ora reluzentes, mas sempre muito artificiais.
Sem luz do dia, farol ou fogueira.
Sem desejos ou privações.
Cintilação errática em paisagens desertas de sons e vida.
Sem lábios ou palavras por proferir.
Sem ar, sem vento, sem aragem tranquila… Apenas sombra. Fria e total e absoluta sombra…
E brilhos, artificiais, ora foscos, ora reluzentes.
Finais.
Até lá tenho fé.
Tenho fé na Primavera e na luz que me entra alma a dentro!
Publicado por Marinheiro e colocado em Crónica |
5
Abril
2007
Hoje sonhei com ele. Curioso. Há muitos anos que nem sequer me recordava das suas feições. E, talvez por isso, decidiu visitar-me esta noite. Trazia uma expressão serena, de quem se tinha esquecido das mágoas provocadas por mim. E, como em todos os sonhos onde nem tudo faz o sentido que devia, recordo de pequenos pormenores que só um sonho podia ressuscitar. E quanto tempo demorei a rasurá-los da minha memória… sonho maldito! Os dedos afunilados nas extremidades e a maçã do rosto agravada pela magreza. Um sorriso desarmante. Carinho meu, carinho desconcertante.
De qualquer modo invadiu o meu leito, esta noite, para me recordar que o passado é só outra forma do presente. Porque não o enterrei, não lhe fiz luto. Não vesti preto e não derramei lágrimas por si. E precisava tê-las derramado. Porque assim não consigo aceitar que ele já não exista para mim.
Descansa em paz, aconchego meu.
Publicado por Flower e colocado em Crónica |