5 Abril 2007

Apocalipse

Chega a Páscoa e com ela a alegria da família, mas também a história do sacrifício e da fé.

Tenho receio. Acordo e adormeço em receio. Um dia pode bem ser o último dia. O meu último dia, o nosso último dia.
Tenho receio. Não digo medo, porque cedo no peso dessa palavra, prefiro receio.
Suor frio, face pálida e brilhante. Mãos delgadas e escorregadias.
Tenho receio. Um dia acordaremos, mas não adormeceremos. E esse dia pode estar para breve.

E se dias há, que fico paralisado neste meu terror, outros há em que a Primavera me entra janela a dentro, vistas a dentro, alma a dentro. E volto a sorrir…

Mas um dia, um dia moeda ao ar…

Estaremos…

Sem Sol ou outras estrelas no horizonte.
Sem fome e sem sede.

Semeados brilhos ora foscos ora reluzentes, mas sempre muito artificiais.
Sem luz do dia, farol ou fogueira.
Sem desejos ou privações.
Cintilação errática em paisagens desertas de sons e vida.
Sem lábios ou palavras por proferir.
Sem ar, sem vento, sem aragem tranquila… Apenas sombra. Fria e total e absoluta sombra…

E brilhos, artificiais, ora foscos, ora reluzentes.
Finais.

Até lá tenho fé.
Tenho fé na Primavera e na luz que me entra alma a dentro!

Publicado por Marinheiro e colocado em Crónica | 3 Comentários

5 Abril 2007

Funeral Devido

Hoje sonhei com ele. Curioso. Há muitos anos que nem sequer me recordava das suas feições. E, talvez por isso, decidiu visitar-me esta noite. Trazia uma expressão serena, de quem se tinha esquecido das mágoas provocadas por mim. E, como em todos os sonhos onde nem tudo faz o sentido que devia, recordo de pequenos pormenores que só um sonho podia ressuscitar. E quanto tempo demorei a rasurá-los da minha memória… sonho maldito! Os dedos afunilados nas extremidades e a maçã do rosto agravada pela magreza. Um sorriso desarmante. Carinho meu, carinho desconcertante.

De qualquer modo invadiu o meu leito, esta noite, para me recordar que o passado é só outra forma do presente. Porque não o enterrei, não lhe fiz luto. Não vesti preto e não derramei lágrimas por si. E precisava tê-las derramado. Porque assim não consigo aceitar que ele já não exista para mim.

Descansa em paz, aconchego meu.

Publicado por Flower e colocado em Crónica | 3 Comentários