15
Janeiro
2010
Falta-me aqui o mar, naquele murmúrio miraculoso e intenso, naquele grito de amor e dor de tantas preces, de tantas promessas a cumprir, de tantos fortes desejos. Faltam-me mais uns dias para te poder ver de novo. Imensidão e paz em que mergulham mortais, farrapos de pó divinos.
Falta-me a vertigem da troca de olhares.
Falta-me o polegar na palma da minha mão, em deslize perfeito, em elíptica que entontece e arrepia.
Falta-me o coração aos pulos entre o instante em que te espero e o momento em que te avisto a chegar. Fica tudo bem, depois. Faltas só tu, que teimas em não chegar.
Falta-me o sorriso rasgado pelas emoções de pele e de alma que se atrasam no relógio de pêndulo que teima em oscilar pouco e em velocidade irregular.
Falta-me só beber uma meia de leite, quentinha, para começar o dia, de novo, com esperança.
Falta-me só um último beijo em forma de poema, se um dia o merecer.
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2
Janeiro
2010
Ontem o silêncio persiste e insiste.
E como há palavras que doem, há silêncios que matam.
Ontem o silêncio persiste e insiste,
separa e atormenta,
preocupa.
Ontem o silêncio inflama e derruba
E há palavras que evitei.
Hoje é um novo dia, hoje!
Presença, presente e prenda!
Hoje murmúrio, grito e gemido.
Hoje prece, carinho e sorriso.
Hoje o silêncio não existe,
apenas este som de mar,
e esta certeza que o é bom o dia de Hoje!
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23
Novembro
2009
Tenho sonhos e medos
No mesmo sangue,
Na mesma alma,
No mesmo coração.
Tenho o brilho nos olhos
Que este mar multiplica,
Que este lugar divide,
Que o coração sustenta.
Tenho as mãos trémulas do frio da solidão,
Do medo do abraço,
Do arrepio do toque.
Tenho o suficiente
Para correr quando quiser,
Para ficar onde não quero,
Para sorrir entre lágrimas.
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19
Outubro
2009
Dança de contornos e silhuetas,
Corpos despidos e quentes
Em madrugadas longas e febris.
Palpitações e suores
Pele rubra
Labareda intensa.
Dança agora e sem demora
Neste balanço de corpos molhados
Entre gotas de chuva e rasgos de luz.
Coração que pula
Mãos que prendem
E noite que tece, de leve, cada gesto.
Dança, só mais um pouco
Neste voo de garça leve
Neste encanto de voz sussurrada,
entre desejos e promessas.
Dança uma última vez
e leva o último beijo que a memória ainda guarda!
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19
Setembro
2009
É assim que se faz o dia e a noite,
É assim que se faz o amanhecer e o anoitecer,
Só assim…
Entre um afago na cabeça, uma crença que se ama e a esperança que se é amado.
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27
Agosto
2009
A poesia que encanta e deslumbra
A poesia que toca e arrepia,
Essa nova palavra proferida em tom de rima
Essa velha maneira de enfeitiçar no papel.
A poesia que nasce nos olhos rasos de água, pela emoção da partida
A poesia que cresce nos coração em sobressalto, no momento do reencontro!
As palavras que vês, do teu mar, no céu
As palavras que vemos no céu, com o teu farol
As palavras que matam saudades e fervilham sangue nas veias e o desejo de voltar.
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16
Maio
2009
É preciso fazer-te estremecer?
Talvez seja. Essa rotina pacata e silenciosa, esse pouca-terra-pouca-terra a que te habituas e em que vês beleza, mas onde estás só.
É preciso fazer-te estremecer?
Talvez seja. O peito rasga-se no interior e sangra, porque nem só de rotina se vive.
É preciso fazer-te estremecer?
Gritar que podes ser amado, além do trabalho, da rotina, do silêncio, das lágrimas e da solidão?
É preciso fazer-te estremecer?
Gritar que podes ser amado, além do riso, da gargalhada, da festa, do vinho e da noite?
É preciso fazer-te estremecer?
Talvez seja. Só porque podes amar alguém e ser, simplesmente, mais amado, além de tudo o resto. Podes, simplesmente fazer estremecer quem está ao teu lado!
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14
Março
2009
Há momentos em que nos silenciamos.
Há momentos em que, depois de tantos sorrisos, entramos em casa sozinhos e as lágrimas descem pelo rosto sem pedirem permissão.
Não é a história que queríamos ler, não é a história que queríamos ter.
Não é o ponto final da história da nossa vida.
É apenas e só um momento, um instante em que nos sentimos pequenos, insignificantes.
É o breve instante entre duas sonoras gargalhadas.
Depois de tantos sorrisos, entramos em casa sozinhos e as lágrimas descem pelo rosto sem pedirem permissão.
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20
Fevereiro
2009
Hoje a janela fica aberta, de par em par,
e entram raios de sol,
cores e cheiros,
saudades.
Hoje a janela deixa entrar alegria,
cor azul, mar e céu,
estrela cadente,
desejo imperfeito.
Hoje a janela deixa entrar a magia
de poder voltar a sonhar,
com um outro olhar no horizonte,
de cabelos ao vento e saliva em palavras sentidas,
em gestos perdidos e
voos alados.
Saudades de futuro que chega,
e está à simples e curta distância de uma janela aberta
e de um raio de sol quente!
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26
Janeiro
2009
Contesto a presunção de amar. Entenderás algum dia porque sou agnóstico? Tomam-me por descrente, desapaixonado, céptico, eu próprio não me sinto a transbordar de vida. Mas que não haja revolta no sentido para a pacificação. Admitir que foram as desilusões que me trouxeram em braços seria aceitar que me deixei trazer. E sei que assim não o foi.
Não invejo os que dizem amar, nem alimento a arrogância de mestre. Não tenho ensinamentos nem palestro. E ainda assim, que se confunda introjecção por apatia estanque traz-me o lívido sabor de injustiça. Não é uma justificação. É um testemunho. Não serei outro depois dele.
O querer não deixará jamais de se fazer sentir profundo. Debato-me entre a comiseração e o orgulho do só. O olhar tem vida própria, remete-me aos espaços questionados. E o que me segreda sabe da arte do quebranto. Cínico, não se inibe de se fazer ouvir pela voz que não é sua. À noite, especialmente. Há noites não tão escuras, sossegos não tão solitários. Há tempo que se condensa neste que aparentemente vês. Mas não. Este que vês não é o que Sou.
Milhares de mim, se havendo quantificação, permeiam-se em múltiplas e simultâneas direcções. Em cada acto, sublima-se o mais exposto. Sou um espectro.
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