Leituras

“Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.” 

Virgilio Ferreira in Para Sempre

A dúvida é uma homenagem prestada à esperança”

“Isidore Ducasse Lautréamont”

in Cantos de maldoror

 

” A vida é bem amarga e a tumba serena!

- Dá-me de Beber.”

“A morte habita no meu seio, eu não sou feito para a vida.”

“Pétrus Borel”

in Champavert: Contos Imorais

 

“O Mundo, na obra de Petrus Borel, não é um local aprazivel, onde se possa gozar a alegria do amor e viver a paz da felicidade”

“José Domingos Morais”

 

“- Et qu’ell meure, comme

il est vrai qu’elle va causer la mort d’un homme.”

“Alfred de Musset”

Actualmente existe um comentário ao “Leituras”

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  1. 1 A Maio 17, 2007, Mik escreveu:

    Estas são as minhas actuais leituras.
    Contem-nos das vossas, que eu estou quase a mudar de livro.
    Espero que as minhas próximas escolhas tenham a qualidade destas
    e que lá encontre “sumo” suficiente para aqui partilhar.
    Pois por norma, não cito livros que não li.